segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ausentes



Eu não assisti ao programa, mas soube da história. O jornalista David Letterman recebeu Joaquin Phoenix para uma entrevista. O ator fez juz à fama de bad boy: não parou de mascar chiclete e só respondia com monossílabos e grunhidos, não facilitando o andamento da conversa. Letterman tentou, tentou e, como não conseguiu arrancar nada do sujeito, encerrou a entrevista com uma tirada que me pareceu perfeita: “Joaquin, uma pena que você pôde vir esta noite.”

Quando uma pessoa se dispõe a dar uma entrevista, tem que entrar no jogo: responder com generosidade ao que foi perguntado e valer-se de uma educação básica, caso tenha. É bom lembrar que a maioria das entrevistas não é feita apenas para dar ibope ao programa, e sim para ajudar na divulgação de algum projeto do convidado. Ambos saem ganhando. Só quem não ganha é a plateia quando o convidado finge que está lá, mas não está. Madonna é até hoje o trauma da carreira de Marília Gabriela, pelos mesmos motivos.

Claro que há quem defenda a atitude de Phoenix com o argumento da “autenticidade”, mas existe uma sutil diferença entre ser autêntico e ser grosso. É muita inocência achar que podemos prescindir de uma certa performance social. Espero não estar ferindo a sensibilidade dos “autênticos”, mas de um teatrinho ninguém escapa, a não ser que queiramos voltar a viver nas cavernas.

Não sou de me irritar facilmente, mas acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a “vítima”, que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. Sabemos o quanto uma mulher pode ser insistente ao tentar convencer o marido a participar de um aniversário de criança, assim como maridos também usam seu poder de persuasão para arrastar a esposa para um evento burocrático. Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre de cerimônias da noite, mas ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói.

Dentro da igreja, ajoelhe-se. No estádio de futebol, grite pelo seu time. Numa festa, comemore. Durante um beijo, apaixone-se. De frente para o mar, dispa-se. Reencontrou um amigo, escute-o.

Ou faça de outro jeito, se preferir: dentro da igreja, escute-O. Durante um beijo, dispa-se. No estádio de futebol, apaixone-se. De frente pro mar, ajoelhe-se. Numa festa, grite pelo seu time. Reencontrou um amigo, comemore. 

Esteja, entregue-se.
Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada. 

Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Esperar no Senhor




  Uma das coisas que menos gostamos de fazer é esperar. E hoje em dia, os avanços tecnológicos que existem em nossa sociedade fizeram de nós seres humanos intolerantes, aos quais esperar é impossível.
Isso tudo se vê refletido em nossa vida espiritual e é difícil esperar no Senhor. Muitas vezes pensamos que nossos problemas não têm soluções, as adversidades que vivemos nunca acabarão e esquecemos em Quem cremos. Declaramos ter fé em Deus e que nossa confiança está nEle; no entanto, quando enfrentamos situações que colocam nossas crenças à prova, cambaleamos e ficamos fracos. Por que há instabilidade em nossas vidas?
 
  Quando esgotamos todos os nossos esforços para encontrar soluções e não conseguimos, voltamos a ficar impacientes e nos angustiamos. Mas você nunca parou para pensar que, tal como Paulo nos ensina, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus? Talvez em todas estas situações, Deus quer mostrar que realmente precisamos depender dEle para conhecer realmente qual é o seu propósito para nossas vidas. Tiago nos diz, que toda prova da fé produz a paciência (Tiago 1:3). Paciência para saber que apesar de estar no vale da sombra da morte não temerei porque o Senhor está comigo.
 
  Precisamos entender que esperar no Senhor não significa que nós simplesmente tenhamos uma atitude conformista e passiva em que não há uma entrega nossa; muito pelo contrário, esperar no Senhor significa aprender a depender dele, para ter plena convicção e certeza de que Deus realmente está no controle de cada situação e que Ele quer o melhor para nós. É fazer as coisas esperando nEle, não por nossas forças, pois, sem Ele nada podemos fazer (João 15:05).
 
  Não devemos ignorar que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Nosso tempo não é sempre o tempo do Senhor, mas certamente o Seu tempo é o melhor. Deixamos Ele assumir o controle de nossas vidas e que aprendamos a ser cada vez mais dependentes do Senhor.
 

REABASTECENDO NA ESPERA


Suponhamos que você fará uma viagem de carro sem tempo e término pré-estabelecidos.
Você precisará estar prevenido, certo?

Por diversas vezes, o tanque de gasolina do carro se esvaziará, e chegará na reserva. Haverá a necessidade de reabastecê-lo no decorrer da viagem.
E quando você sai do posto de gasolina, a sensação de alívio é ótimo! Porém, alguns quilômetros depois, o tanque volta a esvaziar-se.

Também é assim na nossa espera. Há dias em que parecemos estar com o tanque cheio, parece que podemos esperar por 10, 20, 30 anos sem problema algum!

Mas também existem os dias em que a luz da reserva acende, e o pior, não há "postos" ao alcance do campo de visão. 
Parece que vamos "morrer na estrada", com direito a multa da culpa, por pensar que outro "combustível" vai substituir o que realmente precisamos.

Mas não se desespere! Isso não acontece só com você. E é mais comum do que você imagina.

Não há um combustível alternativo para o nosso coração (tanque)... 
Mas há o "Posto do Espírito", que se faz presente quando nos falta motivação. E o abastecimento em qualquer posto que não seja esse, será como colocar água no lugar de gasolina. A consequência será nosso "pane" espiritual

Somente o Senhor tem verdades eternas, e nos ajuda quando falta tudo (vontade, ânimo, coragem, força...) e mais um pouco (santidade, verdade, discernimento...).

Precisamos estar atentos na espera, pois as armadilhas astutas do Inimigo "furam o tanque", atrapalhando nossa viagem rumo a vitória. 

Algumas atitudes "fura tanque":
- Conversinha safadinha no Msn;
- Papinho sem propósito no FaceBook;
- Videozinhos proibidos na Net;
- Revistinhas "que-não-tem-necessidade-de-nomear";
- Conselhos bons, perfeitos e agradáveis à carne;
- Boca cheia de desculpa;
- SMS desnecessário (Joice q falou =D)
- Música do arrocha, do chã chão chão, da rebolação, e de trair a namorada, e afins....

Agora, algumas bandeiras do "Posto do Espírito":
- Msn de/com Jesus, (oração, papo sincero)
- Dar um FolowÃO na Palavra de Deus (tu não segue um monte de coisa? Procure os perfis que falam de Deus sem parar!!! Ex.: @TavaresBru e @rhanusia (hahaha brinks =D)
- Curtir muito o Espírito Santo, Ele é lindo!
- Honrar a Deus em tudo e com todos;
- Veja Deus em tudo o que puder, se não conseguir, tente mais um pouco;
- Comporte-se como um verdadeiro filho de quem você é! Seu Pai é Eterno, busque isso!
- E testemunhe Cristo com sua vida e colha frutos! (1 Timóteo 4:16)
- Leia frequentemente a Palavra de Deus e medite! (Sobrou um tempinho? Corra para ela)
- Ore, converse com Papai, Ele é show e te conhece como ninguém!

ABASTEÇA NESTE POSTO ABENÇOADO, E BOA VIAGEM RUMO ÀS PROMESSAS DE DEUS...

"Mas eu esperarei continuamente, e te louvarei cada vez mais". (Salmos 71:14)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo? Dentro de um abraço.
Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.




http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4

(1) Algumas frases do livro Mulher Inteligentes, relações saudáveis.

"O amor nasce no terreno onde as máscaras caem, a maquiagem é removida e nos tornamos o que sempre fomos, apenas seres humanos, e, como tais, fortes por um lado, frágeis por outro, independentes em algumas áreas, totalmente dependentes em outras."


"Uma pessoa madura é capaz de não apenas elogiar quem ama, mas todas as pessoas que de alguma forma o servem. Quem não é capaz de elogiar porteiros, garçons, faxineiros, cozinheiros, não é digno de ser servido por eles. Há pessoas tão pobres que só têm dinheiro. Há pessoas que são tão incultas, que só têm formação acadêmica."


"Somos ótimos para exaltar erros, mas não para exaltar acertos." 


"Não É fácil conviver com os fantasmas da nossa mente."


"Todas as grandes escolhas, envolve importantes perdas."


"Não tinha muito, mas tinha tudo. Vestes humildes, coração gigante. Transparente, encantava pelo que era, não pelo que tinha."


"Sentir-se amada, incluída, admirada, reconhecida, lembrada, toca as raízes da emoção tanto de um intelectual como de um iletrado, tanto de uma rainha, como de um súdito. Nem mesmo um psiquiatra ou um paciente mutilado por uma psicose e controlado por pensamentos perturbadores escapam dessas necessidades vitais." 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Feliz por nada

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.
Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. "Faça isso, faça aquilo". A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando "realizado", também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.

Martha Medeiros

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

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http://www.youtube.com/watch?v=lHI23YHkJjs

The climb ;D

Eu quase posso ver o sonho que estou sonhando, mas há uma voz dentro da minha cabeça dizendo: Você nunca vai alcança-lo.
Cada passo que eu estou dando, cada movimento que eu faço, parece perdido, está sem direção.
Minha fé está abalada mas eu, eu tenho que continuar tentando, tenho que manter minha cabeça erguida. Sempre haverá outra montanha, eu sempre vou querer move-la, sempre será uma batalha difícil, às vezes eu terei que perder.
Não é sobre o quão rápido eu chego lá, não é sobre quem está esperando do outro lado, é a escalada.
As lutas que estou enfrentando, as oportunidades que eu estou tendo às vezes podem me derrubar, mas eu não estou caindo.
Mas estes são os momentos que eu mais vou lembrar, só tenho que continuar e tenho que ser forte, continuar empurrando, continue em movimento, continue escalando, mantendo a fé.


Pedaços de mim

Eu sou feito de sonhos interrompidos, detalhes despercebidos, amores mal resolvidos. Sou feito de choros sem ter razão, pessoas no coração, atos por impulsão.
Sinto falta de lugares que não conheci, experiências que não vivi, momentos que já esqueci.
Eu sou amor e carinho constante, distraída até o bastante, não paro por instante.
Já tive noites mal dormidas, perdi pessoas muito queridas ,cumpri coisas não-prometidas.
Muitas vezes eu desisti sem mesmo tentar, pensei em fugir,para não enfrentar, sorri para não chorar.
Eu sinto pelas coisas que não mudei, amizades que não cultivei, aqueles que eu julguei,
coisas que eu falei.
Tenho saudade de pessoas que fui conhecendo, lembranças que fui esquecendo, amigos que acabei perdendo.
Mas continuo vivendo e aprendendo.

Martha Medeiros ;D

A dor que mais doi...

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros ;D

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem. A imagem tem a ver com as nossas expectativas e mais ainda com o que ela vende de si mesma.

É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos. Se a pessoa for parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se dela, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças.

Mas se esta pessoa inventou um personagem e você acreditou, virá um processo mais lento: a de desconstrução daquilo que você achou que era real.
Desconstruindo Ana, desconstruindo Marcos, desconstruindo Carla. Milhares de pessoas vivem seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões. Tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico.

Ok! É natural que, numa aproximação, a gente venda mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme.

Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas, manias e imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, sem entender absolutamente nada.

Quem se apaixonou por uma mentira, tem que desconstruí-la para desapaixonar. É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento bacana não chegou a existir, que tudo não passou de uma representação. Talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.

Sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé. Afinal, todos, resistimos muito a aceitar que alguém que gostamos não é, e nem nunca foi, ESPECIAL.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dentro de um abraço

Em maio passado publiquei uma crônica inspirada num verso da poeta carioca Maria Rezende, em que refleti sobre se dentro da gente era um bom lugar para se viver. Alguns leitores disseram que conseguiam ser bons hospedeiros de si mesmos, já outros disseram que dentro deles a coisa andava tumultuada. Então agora inverto a questão: e fora de nós, qual é o melhor lugar para se estar?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito esperado e, principalmente, na minha casa, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Em contrapartida, odiaria estar num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas aonde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Sexta foi Dia dos Namorados e tem gente ainda esticando a comemoração, então é para esses, em especial, que venho lembrar do local mais aconchegante e naturalmente aquecido que há: dentro de um abraço que nos baste.